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quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Na Escuridão


A escuridão já o cansava um pouco. Algumas vezes sentia-se fatigado, por tudo ser sempre igual, mas ele não sabia disso. A escuridão era tudo o que ele conhecia. Pensando melhor, ele nem mesmo conhecia a escuridão, pois jamais vira a luz, portanto não poderia criar o conceito antônimo a ela.

Mas a escuridão o cansava. Durante toda a sua vida encontrara-se naquele local. Um pequeno cubículo de poucos metros quadrados. Havia um banco. Ao menos ele acha que havia um banco, já que era um instrumento moldado em um material que tatilmente se assemelhava a madeira, tinha quatro pernas e um espaço plano onde seus quadris se encaixavam, oferecendo um descanso para suas pernas. Tudo isso o levava a crer que havia uma cadeira, embora ele não conhecesse o conceito de nenhum desses elementos.

Havia também um material parecido com folhas, que encontrava-se em cima de algo parecido com uma mesa. Pura tolice, ele pensava. Como poderia utilizar folhas no escuro? E mais ainda. Como poderiam esperar que ele soubesse que aquilo era uma folha, se jamais antes ele vira ou sentira uma folha? E por fim, mesmo que ele conhecesse as informações e conceitos necessários, jamais deram-lhe uma caneta ou um lápis.

O cubículo também não oferecia muitos sons. O único ruído que se repetia era aquele produzido quando sua perna batia na cadeira vez ou outra, avisando sobre a existência do contato doloroso, já que não havia luz para enxerga-lo e tampouco ele ousava gritar. No início ele sentiu-se estúpido por bater tantas vezes na cadeira. Depois de alguns anos deveria ter decorado o local onde ela se encontrava. Mal sabia ele que a dor era apenas um alivio em meio a tanto vazio e ele tinha se apegado a ela.

E assim passavam-se seus dias. Jamais disse uma palavra, pois jamais existiu alguém que o ensinasse ou escutasse. Jamais viu nada, pois jamais existiu uma luz que fizesse seus olhos terem alguma utilidade ou coisas que valessem a pena observar. E assim ele nasceu, viveu e morreu, sem que jamais alguém soubesse de alguma dessas coisas, já que jamais existira ninguém para observá-lo e reconhecer sua existência.

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